27 março 2011

Cabeça de Vento

Há dias que penso por um dia inteiro
em outros me ataca a desmemoria
disperso do meu corpo, e contemplo telhas
Navego mar acima, e carrego: carcaça
mordaça, navalha, cacos e espelhos destorcidos
Não escuto a voz das minhas próprias poesias
minhas vozes se confundem e se – fundem
com outras sonoras poluídas
As concordâncias pouco concordam entre si
& sinceramente eu não sei onde está o meu verso
O arregaço das mangas logo cedo
os pássaros cheios de audácia
nas escadarias
o acordar de um bebum pela garganta
Tudo passa pelos meus olhos
e des-passa por eles no vento

                                                                 P.A

23 março 2011

Decorar palavras, ou esquecer a vida

Tudo se resume em palavras decoradas. A vida, o corpo e o costume de
decorar palavras.



                                                                      P.A

19 março 2011

Donos do poema

Lobos de gala, que uivam salivantes
(seus corpos, entre – corpos)
compondo um des-passar do existente
Olhares que se cruzam:
desnudados, albinos, extra-raros
pernas que se - intercalam
no embalo da inquietude

rangeres de dentes, unhas cravadas pelas paredes
Rudes, bárbaros: Amantes!
Influencias para o verso. Perversos, distantes

Donos da noite, do tempo
Do consolo e do antes
Donos da lembrança
& do des-memoriar constante.

                                                                                                      P.A

10 março 2011

Os erros ortográficos na penumbra

Carruagens escarlates decaem
no caminhar noturno,
Nuvens cor-de-rosa florescem
nos olhos enigmáticos.

Uma criança “uivando” para a lua
causando um efeito fantasmagórico
Um buque de fantoches
espelhados na parede branca

cuspindo gargalhadas estridentes
na presença de holofotes cansados
espectadores dos horrores casuais

Tudo em volta de um papel raso
sobre os controles remotos
de ossos esfumaçados
& peles comoventes.

                                                                          P.A

08 março 2011

Entre caminhos que não caminham

Ando tão distante de ti
imóvel, seco
O corpo insepulto mergulha
nos instantes quilométricos
da minha não-vida



Não me roubas no jantar
com meus filhos
Não me enche de vomito
não me esvazia 



Levou minha ultima dança
e num relança
levou-me um porão   



Como de costume
pasmo meus olhos
na claridade, feito cego.

                                                                                            P.A

14 fevereiro 2011

A realidade dos tempos

Eu já li todos os livros
que na sua cabeceira
você guarda encaixotados

(poesias, crônicas e átomos)

disponho de muito tempo
você bem sabe
você pouco sabe dos meus tempos

e dos pensamentos
com a moça semi-analfabeta
que mora ao lado

Ela não diz certas coisas
depois do sexo
mas enquanto sexo

(onomatopéias bolinam meus ouvidos)

Seus livros
não são tão ricos
como aquela moça

Aquela moça
não é tão rica
como seus livros.

12 fevereiro 2011

Oscilações

Aquela assombrosa tempestade noturna
lençóis, proa, pernas. As sobras em ação
refletindo na parede oca: vômitos de entranhas
para as entranhas, submersas no mar inconsciente

[escarrei aquele naufrágio num esbugalhar]


Fitei minhas mãos, antes marinhas
e sobre a face, as repousei
pus-me a soluçar freneticamente
pus-me a devanear
nas ondas sonoras de Chet Baker


Era mais uma coruja infâmia
gritando ferozmente aos meus ouvidos
seduzindo-me em tua seda obscura
partindo a moral de minha cama casta


internando-me nas lacunas da loucura
& num ato insano, fixava meus olhos
nos louros de Lou Salomé


[Conformado com minha existência não espelhada]

caminhavam às cegas vistas
sem brilho, cor, ou decoro
apenas um quadro negro que perdurava
no roteiro irreal do meu psiquismo.

P.A

A partida dos Campos

Os campos
tristes, ( observo-os)
Não são tão belos como antes
perderam o desalinho do vento
perderam a pulga da palavra
tornaram-se para colheita
mães inférteis, escassos
Convenhamos,
é lastimoso presenciar
o tão doloso partir
dos campos em mãos tremulas.
P.A

06 fevereiro 2011

O solitário cozinheiro dos estômagos decapitados

No acorde alarmante do galo
acordo aos olhos pasmos
De prontidão
surge então o reflexo dilacerado


[Noto as veias, que envergam-se em auto- relevo]


Tão em dó canta o galo
expectador primário
da minha velheira


Logo vem a hora dos cangaceiros
& com eles
a orquestra demoníaca em punho
sobre a mesa


Bravos homens
bravos com a fome
em cima da sua própria roliça
aos comes.

                                                                                              P.A

24 janeiro 2011

Homens que repetem silêncio

Quando a noite toca teu sonífero soneto
Decreta nos olhos peso
E nas declarações por vim, se vão...
Nas tuas mãos uma crença e um apelo


Com honrosa submissão
Aos seus atos não cometidos
Em seu peito
Alem de amor, habita sigilo


Ah, silêncio...
Navio de homens que gritam
Para sereias surdas.



Seus lábios vivem alvoroçados
No desejo incontrolado de dizer
Mas apenas repetem: silêncio.




P.A

22 janeiro 2011

Extra-cotidiano

Ah! A vida bucólica
os olhos do boi brilhando
ao ver o mato verde
A mesa, o café
e o dia que passa sem pressa
o suor dos moços
deixado no canavial
as abelhas e seus ferrões suicidas
seus idealismos recheados de mel
porcos sujos comendo lavagem 
crianças nuas cobertas de liberdade
sonhos semeados pela enxada
pedras perdidas nas pastagens
rosas, cravos e bananeiras
nascendo logo depois da capinagem
os pássaros cortando o céu
entoando seus cânticos renitentes
o queijo na forma, a broa de saída
a galinha atrevida explorando a varanda
Ah! A vida de beleza a pinta
Quando breve é mesmo bela.


P.A

Em Partes

Quero que meu filho seja criado na roça
Junto das galinhas, da bosta e do orvalho
Depois que morra na cidade
Junto dos carros, dos prédios e da sacanagem.


P.A

21 janeiro 2011

Diante de mim

Aqui está meu ser, em derradeira essência é construído.
Sobre uma montanha distante... (o observo com mais clareza)
Aí estão meus problemas e dores! Os tenho em volúpia.
No tempo breve de um gozo, os absorvo sistematicamente.
Venero minhas verdades humanas,
& os prazeres em viver na beira do abismo.
Em determinados dias...
Quero seduzir, dominar a fim de ver o caos.
Empurrar para o mesmo abismo,
essas gaivotas mesquinhas de assas cortadas..
Diante do céu, ao monte, pasmadas.
Depois de tal ato... Regozijar!
Em outros dias de redenção, estou demasiadamente grávido!
pronto para dar a luz ao “messias”. Nesses dias, suplico:
Que haja ouvidos para escutar meus olhos!


P.A

Queridos amigos!-Felicidade

A felicidade está viva! Fechem as portas!
Engane-a! Assassinai-a... O mais breve possível!
A felicidade é tão feroz quanto à paz!
é uma puta que mente as verdades a qual queremos ouvir,
que nos conforta no leito, impedindo de enxergar sua desonra;
e por fim a tratamos como gente de casa.


P.A

Recordação

Essas almas conturbadas
Que vivem e passam atadas
Aos olhares do entardecer

Repletas de sabias ignorâncias
Atordoadas no vazio de ser

Rendem a loucura
Dita cuja essência do amor
Vulgo sentimento dos Bêbados
Cantores da rua do pudor

A inquieta mocidade
Foi precoce
Pernoitando em suas lembranças

Os desvarios da juventude
Rapazes, compadres do diabo
Com seus discursos desatinados
No ato de tragar...

Trazem em nossos cansados olhares
Uma recordação.

 P.A

19 janeiro 2011

O Senhor Dorso

Enquanto a neblina esfarela sem pressa
sobre as montanhas
se forçarmos as retinas descompensadas
poderemos ver um homem
carregando um corpo:

mórbido excluso de qualquer tratamento ameno!


Carrega tal fardo, como se ainda pequeno
já fosse corcunda
entre alegrias defuntas, e dores vivas
percorre o caminho do próprio desapego.


Quando ainda jovem
porém já corcunda
Diziam as línguas fundas:

“[Não se pode dizer que possui alguma beleza, mas de fato é um jovem muito promissor, com certeza será um exímio Escritor ou até quem sabe se faça Doutor].”



Escritor ou Doutor?
                               
                             
Pensava ele com as costas e com as indagações
Mais tarde, já demasiadamente fadigado
ia ter com as biscates da esquina 13
onde sua corcunda não era tão pesada.

                                                                                                                P.A